Coisas da alma e do mar


"No horizonte calmo, um dia, cresceu uma onda... E veio com força e velocidade até que então, quebrou em poesia. Botou palavras em coisas que moravam só na alma, e tudo o que lá morava, estava bem próximo do inacreditável"

O zelo oculto do nosso íntimo limita-se a observar a inquietude da mente, e a espera à maturidade, tal como o pai o seu filho crescer.
Sendo que as mantém em aparente confusão, num necessário esforço de cuidá-las bem guardadas, à mente só são revelados os segredos quando esta, posto que tem sede, vai à procura da fonte. Como se bagunçadas dentro de um baú antigo, chegam difíceis de entender quando as arrumamos em palavras. E desafia-se a própria alma encontrar palavras fiéis aos sentimentos, encontrar um corpo fiel ao espírito milenar, uma forma física adequada ao seu sutil correspondente astral.
Apoio-me agora na perfeição da Natureza vislumbrando-a fazer no seu estado de graça natural, quando descanso meus olhos no horizonte claro, e vejo o mar fundir-se ao céu. Mar que é o próprio correspondente físico do céu na Terra. Mar que é a própria atmosfera liquefeita.
Nessas coisas é que se escondem alguns segredos, esperando-nos saber. E como nos esperam... Como um coração materno espera seu filho chegar ao mundo, à mercê de sua própria luz. Uma vez nascido o mistério se faz, porque o que era sabido vira oculto nas profundezas d’alma. Uma cortina se fecha do lado de lá e o espírito faz-se temporariamente carne. Basta nascer.
Nasce e verás que já lhe é próprio o dever de chegar por si mesmo aos arquivos da tua alma. Nasce e verás como é tentar lembrar da vida quando se acorda, esforçar-se para chegar no que já é seu. Tão seu e tão no seu fundo que é preciso prender a respiração e mergulhar profundo para alcançar. E quando se alcança, pode estar turvo, porque esse mergulho é de corpo nu e de olhos bem abertos nas profundezas da sua alma, a imensidão do mar.

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