Terral

Abrindo os olhos de repente, vôo pelas janelas da minha alma. Estou de volta. Me pego sentindo as luzes da gávea alaranjar suas ruas, em pincel, lembrando-me dessa tarde que sentia o vento quente soprar, me mexendo bem os cabelos revoltos sobre a cara... sentia o calor de mãos femininas nesse vento... De leve a mente pôs-se a vagar junto às folhas suspensas no ar daquela tarde de outono. Tudo estava ali. Nesses momentos era que entendia a felicidade, pelo vento que vinha soprando pela rua balançando aquelas árvores. Vento que era morno e próprio daquela tarde de crianças e de mochilas voltando da escola, do interfone tocando na portaria, das cigarras entoando seus cantos no crepúsculo, até do magnetismo infantil do baleiro e da lentidão das luzes do sinal do trânsito. O tempo queria parar naquele dia, ah... queria. E parou. Meus passos pela marquês já pareciam não conhecer mais a gravidade: estavam soltos, leves, que mal me atravessavam a rua. Acho que foram alguns minutos até trazer às mãos a amêndoa caída no chão. Seu perfume doce me devolvia ao passado... podia sentir as penas das araras no ombro nu... o cabelo liso na face serena esconder um sorriso nos lábios... e a luz solar inundar meus olhos pelo brilho da água lagunar... Quanto tempo ali fiquei, entregue aos pensamentos, jamais saberei dizer... Eram minhas raízes ancestrais nas amendoeiras... E como se acordando de um sonho, balancei bem a cabeça, esperando que o vento me levasse... Naquele andar volitante vencia pela rua qualquer obstáculo, a poeira já não me pesava. E de ir mesmo assim é que senti os pêlos do rosto em sal. Aquela densa arborização e as garças brancas no canal me diziam o ar da praia. Fui ver a praia, sonhar pela praia, respirar aquela praia. Já era mais que o vento quente e o mormaço aquela hora, já tinha hálito aquela tarde, tinha vida própria. De repente já era o céu deitado e esparramado pelo mar, chamando o sol pra repousar ao seu lado naquela tarde, como a trazer para junto do peito a namorada. Quanta calma tinha ali. As ondas quebrando pela areia conversavam divertidas lembrando d'algum verão, em que muita gente bonita pousou nareia dourada para ver o sol se pôr. As fragatas faziam justamente isso naquela tarde, em que as pombas brancas, pretas e mestiças começavam a beliscar as coisinhas nareia. Aquele som de mar lembrava poesia, que naquela tarde, era o próprio céu derramado na Terra. A lua clara já havia caído naquela hora... Era o arpoador, deitado de costas para o diabo, que a tudo observava, encantando e redimido. Ele próprio me dizia, que o calor daquele dia, fez-se do amor do seu coração. Ah, como era linda a tarde em que o vento terral soprou...

Comentários

Anônimo disse…
Oi Bruno..saudade da sua intensidade...
Aqui acho que vai da pra matar um pouquinho!
Ve se aparece!
Bjos!
Anônimo disse…
grande Bruno...
lendo esse pequeno momento de saudosismo, fico feliz em saber que mesmo com tantas outras dedicações voce não deixou a essencia da alma aprisionar-se diante da violencia que nos aparece aqui da cidade maravilhosa.Tenha em mente que também é dessa maneira que iniciamos a transformação das más vibrações existentes dando lugar no espaço as mais elevadas sensações para que comecem ainda em pensamento a se concretizarem...
Enquanto muitos se revoltam...poucos se esforçam em mentalizar um ambiente melhor...
Faça sua parte e dissemine-a.
Fica com Deus e deixa teu anjo te guiar!
Unknown disse…
Bruninho,
certifique-se de que lerei isso com frequência. Acho inclusive que preciso realizar mais atividades com as por ti listadas.
Lendo já senti o prazer, imagine vivendo-as!
Abraços grandes,
Antonio Tarcisio.
Anônimo disse…
Nossa, q lindo...além d iluminado, és tb poeta? perfeito td q vc escreveu...com certeza visitarei sempre sua página...está n rio? como foi n acampamento? recebeu os e-mails? saudades!
bjinhos
=]

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