terça-feira, 21 de agosto de 2007

Pescador

Pescador?
Ei pescador, acorda!
Acorda pescador, acorda...


Porque estás assim pescador?
Porque tiveste que tropeçar para ver?
Tu bem sabes que não é porque lanças tua rede ao mar
Que pegas peixe, pescador!

Eu bem tentei avisar
Mas tu não ouviste
Essa maré de lua não era para tu navegar
Não tu pescador

E porque em teu barco botaste o nome Sonhador
Estás morto, pescador!
Tu não sabes que nome carrega alma?
Pobre de ti, pescador

Tu não és capitão dos mares, pescador
Jamais foste!
Tu és criança, és menino, és mendigo
És pobre marujo sonhador

Tu sonhas com a lua
Mas esqueces do peixe, pescador
Água do mar não mata sede, pescador
Tu, pescaste a dor

Mas tu és forte, és valente
És capitão de teu barco, pescador!
E se tens peito de remador
Não temes morrer para esse mundo escuro dos homens, pescador

Tu vives agora na luz do meu mundo pescador
Já conheceste a face da morte e do amor

Ah pescador, não fiques triste
Costuras logo essa malha
Tu bem sabes que o amor nunca falha...

domingo, 19 de agosto de 2007

Viajante II

"Senhor
Que eu não fique nunca
Como esse velho inglês
Aí do lado
Que dorme numa cadeira
À espera de visitas que não vêm"

Viajante

Pelas voragens da vida vai o menino viajante
Dourado, amado, alado
Amante, errante, avante
No rosto um par de olhos marejados
No peito um coração despetalado por ninguém
Seus sonhos de ingênuos caminhos
Em seu silêncio muitas vozes, muitas perguntas
Em sua fala muitos caminhos, de rios que descem montanhas
E de estrelas que riscam o céu
Leva nua mochila um mar de lembranças
E toda a sombra para deitar
Perde o olhar no horizonte
E o fogo do inverno na tarde seca
Queima todas as folhas

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Onde eu nasci passa um rio

"Onde eu nasci passa um rio
Que passa no igual sem fim
Igual, sem fim, minha terra
Passava dentro de mim

Passava como se o tempo
Nada pudesse mudar
Passava como se o rio
Não desaguasse no mar

O rio deságua no mar
Já tanta coisa aprendi...

O rio só chega no mar
Depois de andar pelo chão
O rio da minha terra
Deságua em meu coração"

Lunar

"O teu destino deveria ter passado neste porto, onde tudo se torna impessoal e livre, onde tudo é divino, como convém, ao real"

Era a saudade vindo pela brisa do tempo, espumas da praia e o som do mar... A minha história começava mais uma vez ali, na lua cheia, e iria terminar antes do fim. A mulher inteira de um homem, nunca foi sua metade. Uma mulher sempre foi inteira de amor. E as crianças sempre foram mestres, brincando de falar... Gosto de vê-las escapolir palavras bonitas, perfumar o meu dia. Assim fico sendo um pouco do sorriso travesso, disfarçando a vontade de bem querer todas as pessoas no meu peito, estreitadas num abraço...
Mas me sinto longe sob o brilho das estrelas... E o sol quando brilha deixa crateras em mim, como seu eu fosse a lua, fecundando o amor na Terra...

terça-feira, 7 de agosto de 2007

O dia vai chegar


"Sustentamos uma cadeia produtiva que está acabando com a vida da terra, do ar e da água. Estamos interrompendo o ciclo natural de renovação da vida e ainda assim, continuamos.
Tudo que não se renova, se acaba, do átomo ao ser humano"

Já não era mais o Sol
Já não podia mais ser
Era o pó das coisas passageiras
Entristecendo o alvorecer

O vento já não era
Quem balançou tantas frondes
Havia temor naqueles dias
Balançando agora pontes

Nem mais a terra podia ser
Tal o aborto permanente
Impediram sua alma
Fecundar qualquer semente

E quando a água desaguou
No rio do espaço
Um estrondo ressoou
Desfazendo-se o grande laço

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Coisas da alma e do mar


"No horizonte calmo, um dia, cresceu uma onda... E veio com força e velocidade até que então, quebrou em poesia. Botou palavras em coisas que moravam só na alma, e tudo o que lá morava, estava bem próximo do inacreditável"

O zelo oculto do nosso íntimo limita-se a observar a inquietude da mente, e a espera à maturidade, tal como o pai o seu filho crescer.
Sendo que as mantém em aparente confusão, num necessário esforço de cuidá-las bem guardadas, à mente só são revelados os segredos quando esta, posto que tem sede, vai à procura da fonte. Como se bagunçadas dentro de um baú antigo, chegam difíceis de entender quando as arrumamos em palavras. E desafia-se a própria alma encontrar palavras fiéis aos sentimentos, encontrar um corpo fiel ao espírito milenar, uma forma física adequada ao seu sutil correspondente astral.
Apoio-me agora na perfeição da Natureza vislumbrando-na fazer no seu estado de graça natural, quando descanso meus olhos no horizonte claro, e vejo o mar fundir-se ao céu. Mar que é o próprio correspondente físico do céu na Terra. Mar que é a própria atmosfera liquefeita.
Nessas coisas é que se escondem alguns segredos, esperando-nos saber. E como nos esperam... Como um coração materno espera seu filho chegar ao mundo, à mercê de sua própria luz. Uma vez nascido o mistério se faz, porque o que era sabido vira oculto nas profundezas d’alma. Uma cortina se fecha do lado de lá e o espírito faz-se temporariamente carne. Basta nascer.
Nasce e verás que já lhe é próprio o dever de chegar por si mesmo aos arquivos da tua alma. Nasce e verás como é tentar lembrar da vida quando se acorda, esforçar-se para chegar no que já é seu. Tão seu e tão no seu fundo que é preciso prender a respiração e mergulhar profundo para alcançar. E quando se alcança, pode estar turvo, porque esse mergulho é de corpo nu e de olhos bem abertos na imensidão do mar, nas profundezas da sua alma.

domingo, 5 de agosto de 2007

Terral

Abrindo os olhos de repente, vôo pelas janelas da minha alma. Estou de volta. Me pego sentindo as luzes da gávea alaranjar suas ruas, em pincel, lembrando-me dessa tarde que sentia o vento quente soprar, me mexendo bem os cabelos revoltos sobre a cara... Mas que sentia o calor de mãos femininas nesse vento... De leve a mente pôs-se a vagar junto às folhas suspensas no ar daquela tarde de outono. Tudo estava ali. Nesses momentos era que entendia a felicidade, pelo vento que vinha soprando pela rua balançando aquelas árvores. Vento que era morno e próprio daquela tarde de crianças e de mochilas voltando da escola, do interfone tocando na portaria, das cigarras entoando seus cantos no crepúsculo, até do magnetismo infantil do baleiro e da lentidão das luzes do sinal do trânsito. O tempo queria parar naquele dia, ah... queria. E parou. Meus passos pela marquês já pareciam não conhecer mais a gravidade: estavam soltos, leves, que mal me atravessavam a rua. Acho que foram alguns minutos até trazer às mãos a amêndoa caída no chão. Seu perfume doce me devolvia ao passado... podia sentir as penas das araras no ombro nu... o cabelo liso na face serena esconder um sorriso nos lábios... e a luz solar inundar meus olhos pelo brilho d'água lagunar... Quanto tempo ali fiquei, entregue aos pensamentos, jamais soube dizer... Eram minhas raízes ancestrais nas amendoeiras... E como se acordando de um sonho, balancei bem a cabeça, esperando que o vento me levasse... Naquele andar volitante vencia pela rua qualquer obstáculo, a poeira já não me pesava. E de ir mesmo assim é que senti os pêlos do rosto em sal. Aquela densa arborização e as garças brancas no canal me diziam... o ar da praia. Fui ver a praia, sonhar pela praia, respirar aquela praia. Já era mais que o vento quente e o mormaço aquela hora, já tinha hálito aquela tarde, tinha vida própria. De repente já era o céu deitado e esparramado pelo mar, chamando o sol pra repousar ao seu lado naquela tarde, como a trazer para junto do peito a namorada. Quanta calma tinha ali. As ondas quebrando pela areia conversavam divertidas lembrando d'algum verão, em que muita gente bonita pousou nareia dourada para ver o sol se pôr. As fragatas faziam justamente isso naquela tarde, em que as pombas brancas, pretas e mestiças começavam a beliscar as cousinhas nareia. Aquele som de mar lembrava poesia, que naquela tarde, era o próprio céu derramado na Terra. A lua clara já havia caído naquela hora... Era o arpoador, deitado de costas para o diabo, que a tudo observava, encantando e redimido. Ele próprio me dizia, que o calor daquele dia, fez-se do amor do seu coração. Ah, como era linda a tarde em que o vento terral soprou...

A mente turva

quando vê menos que pode
e se confunde no meio da realidade,
que na verdade,
é só aparente

Me irritou no corpo
e me doeu na mente,
na madrugada,
hoje em dia (ela) já nem sente

Quem vai parece que faz amanhecer
o dia que já é claro,
mas dá mais - por favor,
quem fica nem se vê

E quantas dela pra saber,
que não existe lá e cá,
que tá tudo muito junto,
feito terra, céu e mar

Corpo e vapor

Da terra que nos fez o que somos, de toda ela somos. Aglomerados de átomos de carbono e nitrogênio, e de enxofre, e de pouco ou quase nada oxigênio. Mas haja água nesse corpo, quase todo agádoizó. Corpo que evapora e também neblina, turva, escurece. Junta tanta nuvem negra e ainda reclama a tempestade, do peito aberto encher na chuva e no mar, o corpo de água e de sal. Mas que tudo é eter nesse mundo transitório. Todo corpo um dia se faz vapor, porque há sempre de chover. E um dia ainda se faz da compreensão da morte, o labor de toda vida.

sábado, 4 de agosto de 2007

Participar da Vida

Participar da vida é quase não interferir
fecundar a flor e ver crescer a árvore milenar

Participar da vida é guardar saudades dos amigos
em silêncio nas raízes do jequitibá

Participar da vida é dormir querendo pouco
perder o olhar nas estrelas e raiar como o sol

Participar da vida é andar por aí descalço
disponível para um graaaande abraço